Mês: fevereiro 2014

Oscar vintage

Contagem regressiva para o Oscar 2014, que acontece nesse domingo, dia 02 de março!

Julie Andrews recebeu o Oscar pela primeira vez em 1965, por sua atuação em Mary Poppins. No ano seguinte, ela foi indicada mais uma vez por A Noviça Rebelde (“The Sound Of Music”). A sua terceira e última indicação aconteceu em 1983, pelo filme Victor Ou Victoria (“Victor Victoria”).
Na foto abaixo ela aparece ao lado de Audrey Hepburn, logo após de receber sua primeira estatueta.

oscaruclaCréditos: UCLA Library

Mary Poppins – Direção: Robert Stevenson, 1964, EUA.
A Noviça Rebelde (“The Sound Of Music”) – Direção: Robert Wise, 1965, EUA.
Victor Ou Victoria (“Victor Victoria”) -Direção: Blake Edwards, 1982, EUA.

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Edith Head – biografia

O figurino dos filmes costuma ter destaque em revistas de moda, porém, é pouco valorizado como um elemento cinematográfico. De fato, não é a função mais valorizada no cinema (principalmente quando se compara com direção de fotografia, por exemplo). Entretanto, ele foi fundamental para transformar algumas das mais importantes estrelas de Hollywood em mitos do cinema. E a principal responsável por isso foi Edith Head.

Edith Head foi a mais importante figurinista de Hollywood e, do mundo. Até hoje, ela é considerada a maior pelos figurinos marcantes, filmes clássicos e pelas atrizes que vestiu. Por isso, se tornou a mulher que mais recebeu Oscars (um total de 8 estatuetas).

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Nascida na California, em 1897, Head se formou em francês e começou a trabalhar como professora de francês na Hollywood School for Girls (Escola de Hollywood para Garotas). Para conseguir um aumento, ela também passou a dar aulas de arte, mesmo não tendo nenhuma instrução na área. Em 1923, Edith se casou com Charles Head, de quem adotou o último nome.

Em 1924, Head conseguiu um emprego de figurinista na Paramount. Na época, ela não tinha nenhuma experiência e não sabia nada de design. Para a entrevista, Edith levou um portfólio com seus croquis e de seus alunos. E isso bastou para que ela ficasse com a vaga.

A princípio, Head trabalhava como assistente de figurinistas mais importantes do estúdio, como Howard Greer e Travis Banton. Em 1937, no filme The Hurricane, Edith criou um vestido sarongue para atriz Dorothy Lamour, o que trouxe reconhecimento do público para o trabalho de Edith. Em 1938, com a saída de Banton, Head ficou com o posto de Head Designer e se tornou a principal figurinista da Paramount. Alguns anos depois ela se tornaria a principal figurinista do mundo.

edith03O vestido saronge de Dorothy Lamour em The Hurricane.

Enquanto trabalhava pela Paramount, Head se divorciou de Charles Head. O marido se foi, mas o nome ficou. Dois anos depois, casou-se com o cenógrafo Wiard Ihnen com quem ficaria até 1974, quando ele morreu de câncer.

Edith Head ficou famosa por várias motivos. Ela se empenhava em fazer um figurino que dialogasse com o filme. Conseguia entender a alma do personagem e passar sua interpretação para o figurino. Usando o figurino como uma forma de caracterização para que o público entendesse quem é aquele personagem. Seu objetivo não era fazer o vestido se sobressair, mas sim, ajudar a contar a história do filme. Os diretores adoravam isso.

Além disso, os figurinos de Edith Head conseguiam esconder os defeitos e acentuar as qualidades de quem os vestia. Por isso, ela ganhou o apelido “Dress Doctor” (“Doutora de Vestidos”) e se tornou a queridinha das atrizes mais bonitas de Hollywood, que faziam questão de usar as criações de Edith Head. Mesmo contratada pela Paramount, Edith trabalhou em produções de outros estúdios, a pedido dessas estrelas.

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Créditos: UCLA Library

Naquela época, o figurinista não necessariamente cuidava de todo o figurino do filme. Algumas vezes o trabalho se delimitava aos vestidos da estrela do filme. Edith era craque em deixá-las ainda mais deslumbrantes.

Quando a categoria “Melhor Figurino” foi criada no Oscar, em 1948, Edith logo foi indicada pelo filme A Valsa do Imperador (“The Emperor Waltz”). Aquela não foi a única vez. Pelo contrário, Head foi indicada todos os anos de 1948 a 1966. E alguns anos depois disso também. Ao todo foram 35 indicações, tendo vencido oito delas. Por isso, Head é a mulher que ganhou mais Oscars em toda história da Academia.

Head deixou a Paramount pela Universal em 1967. Nessa época, os estúdios começavam a perder sua força e um novo sistema, mais livre e inspirado na Nouvelle Vague, começava a tomar conta do cinema americano. Além disso, as atrizes de sua época já não estavam mais trabalhando tanto, e Head começou a fazer figurinos para televisão. Mesmo sem o glamour das décadas de 30, 40 e 50, as produções de Edith foram reconhecidas.  Ela ainda foi convidada para desenhar o uniforme feminino da guarda costeira americana, uma honra para a figurinista.

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Um dos mais icônicos figurinos de Edith Head: o vestido de Grace Kelly em Janela Indiscreta (“Rear Window”)

Edith Head trabalhou até sua morte, em 1981. O último Oscar que recebeu foi em 1974 pelo figurino de Um Golpe de Mestre (“The Sting”). E seu último trabalho foi Cliente Morto Não Paga (“Dead Men Don’t Wear Plaid”), uma homenagem ao cinema clássico hollywoodiano. O filme é uma paródia com estética de film noir estrelada por Steve Martin que brinca com imagens do gênero, editadas para contarem a história do filme.

Durante todos esses anos, o visual de Edith Head era sua marca registrada. Ela estava sempre com os cabelos pretos presos, franja e óculos redondos de graus ou escuros. No filme Os Incríveis (“The Incredibles”), a personagem Edna Mode, responsável pelas roupas dos super-heróis foi inspirada em Edith Head.

edith02Mesmo com pouco reconhecimento na área do figurino, Edith Head é uma das lendas da era de ouro do cinema americano. Foi uma das maiores contribuidoras para o glamour quer marcou os filmes da época, e, principalmente, foi capaz de fazer das atrizes que vestia, ícones de elegância e estilo. A importância de Head a tornou tão célebre quanto as estrelas que vestiu.

Créditos:

Wikipedia

Best Of Dress – Happy Birthday Edith Head

The Hurricane – Direção: John Ford e Stuart Heisler, 1937, EUA.

A Valsa do Imperador (“The Emperor Waltz”) – Direção: Billy Wilder, 1948, EUA.

Janela Indiscreta (“Rear Window”) – Direção: Alfred Hitchcock, 1954, EUA.

Cliente Morto Não Paga (“Dead Men Don’t Wear Plaid”) – Direção: Carl Reiner, 1982, EUA.

Os Incríveis (“The Incredibles”) – Direção: Brad Bird, 2004, EUA.

Rat Pack

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“Rat Pack” era o nome como se autointitulava um grupo de artistas americanos da década de 50. Liderados por Humphrey Bogart e nomeados por sua mulher, Lauren Bacall, o grupo era formado pelas celebridades amigas do casal: Frank Sinatra, Judy Garland, Swifty Lazar, Nathaniel Benchley, David Niven, Katharine Hepburn, Spencer Tracy, George Cukor, Cary Grant, Rex Harrison e Jim Van Neusen.
Diz-se que a origem do nome pode ter sido a residência de Bogart e Bacall, “Holmby Hill Rat Pack”, o lugar aonde os amigos se reuniam.

bogartbacallsinatraCom a morte de Bogart, em 1957, o “Rat Pack” original se desfez e Frank Sinatra formou um novo grupo com Dean Martin, Sammy Davis Jr, Joey Bishop e Peter Lawford. A imprensa começou a se referir a eles como “Rat Pack”, embora eles nunca tenham se denominado assim. Pelo contrário, preferiam se chamar “The Summit” ou “The Clan”.

Essa foi a formação mais famosa do grupo. Eles se conheceram nas filmagens de Onze Homens e Um segredo (“Ocean’s Eleven”), em Las Vegas. Naquele período, Dean Martin, Frank Sinatra e Sammy Davis Jr. estavam em cartaz na cidade com seus shows individuais. Eles iam uns nos shows dos outros, fazendo algumas participações no palco, levando o público ao delírio.

ratpack01Logo,  começaram uma amizade. Eles gostavam de se divertir: bebidas, festas, garotas, etc, eram suas atividades preferidas. Também tinham afinidades políticas, já que eram a favor do partido democrata e, unidos, apoiaram a campanha para levar Kennedy à presidência dos EUA. Um de seus membros, Sammy Davis Jr. era negro, o que reforçava o discurso anti-racista do grupo. Como forma de protesto, eles se recusavam a se apresentar em casas segregacionistas (aquelas que separavam negros dos brancos ou até que proibiam a entrada de negros).

Os membros do “Rat Pack” trabalharam juntos no cinema, durante os anos 60. Há uma longa lista de filmes associados ao “Rat Pack”, mas a maioria conta com apenas dois ou três integrantes. Somente três tem a formação completa: Onze Homens e Um segredo (“Ocean’s Eleven”), Os 3 Sargentos (“Sergeants 3”) e Robin Hood de Chicago (“Robin and the 7 Hoods”).

Além disso, Dean Martin, Frank Sinatra e Sammy Davis Jr. estenderam a parceria para área musical. Eles se apresentaram juntos em alguns shows pelos EUA.

As atrizes Shirley MacLaine e Marilyn Monroe eram consideradas as mascotes do grupo por participarem dos filmes do “Rat Pack” e também serem amigas dos integrantes.

Sammy Davis Jr., Frank Sinatra and Dean MartinUm dos motivos que levou ao fim do “Rat Pack” foi um episódio envolvendo o presidente Kennedy. Peter Lawford estava casado com a irmã de Kennedy e Sinatra tinha se aproximado do presidente, durante a campanha. Sinatra apoiou a candidatura de Kennedy, e como os dois tinham muito em comum (o gosto pela política e pelas mulheres), acabaram se tornando amigos.
Num verão, Sinatra convidou o presidente para passar um tempo em sua mansão em Palm Springs, e Kennedy aceitou. Entretanto, seu irmão Robert Kennedy o aconselhou a não ir, já que, na época, Sinatra tinha ligações com alguns mafiosos e também os recebia em sua casa.
Kennedy acabou se hospedando na casa de Bing Crosby. Sinatra ficou enfurecido e culpou Lawford por isso. Os dois nunca mais foram amigos.

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Em paralelo, Samis Davis Jr. estava cada vez mais envolvido com as drogas e, por isso, foi se distanciando do grupo, que acabou perdendo sua força.

Alguns anos depois, Davis, Dean Martin e Sinatra se reuniram para uma turnê chamada Together again (“Juntos novamente”). Em 1998, a HBO lançou um filme para TV que narra a história do grupo, chamado The Rat Pack.

Hoje, todos os membros do “Rat Pack” já morreram.

ratpack03Onze Homens e Um segredo (“Ocean’s Eleven”) – Direção: Lewis Milestone, 1960, EUA.

 Os 3 Sargentos (“Sergeants 3”) – Direção: John Sturges, 1962, EUA.

Robin Hood de Chicago (“Robin and the 7 Hoods”) – Direção: Gordon Douglas, 1964, EUA.

Cinebiografias

A fascinação que os astros e estrelas exercem no público gera uma curiosidade natural pela vida pessoal desses artistas. Daí o sucesso das revistas de fofoca. Muitas celebridades tiveram histórias de vida tão interessantes quanto a trama de seus filmes. Por isso, o cinema faz um tributo a eles toda vez que lança uma cinebiografia (ou biopic).

A Vida e Morte de Peter Sellers

Peter Sellers ficou reconhecido pelo seu talento com a comédia, principalmente no filme Um convidado muito trapalhão.  Por ser um grande humorista, ele ficou marcado na história do cinema pelos filmes divertidos que fazia. Entretanto, sua cinebiografia mostra que, na vida pessoal, Sellers era menlacólico e mentalmente instável.
Geoffrey Rush interpreta Sellers e Charlize Theron, uma de suas mulheres, Britt Ekland, a Bond Girl de  007 Contra o Homem com a pistola de ouro (“Man With The Golden Gun”).

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A Vida e Morte de Peter Sellers (“The Life and Death of Peter Sellers”) – Direção: Stephen Hopkins, 2004, Inglaterra.

007 Contra o Homem com a pistola de ouro (“Man With The Golden Gun”) – Direção: Guy Hamilton, 1974, EUA.


Sete dias com Marilyn
Esse filme não é uma cinebiografia, mas conta um pequeno pedaço da vida de Marilyn Monroe. Em seus livros “The Prince and the Showgirl” e “My week with Marylin”, Colin Clark narra ter se relacionado com Marilyn durante as filmagens de O Príncipe Encantado (“The Prince and the Show Girl”), quando ela ainda era casada com Arthur Miller. Ela era a estrela do filme e ele o assistente de direção em seu primeiro trabalho.
Marilyn é muito bem interpretada pela atriz Michelle Williams, que construiu uma personagem frágil e insegura (tanto em suas relações, quanto em seu trabalho) consistente com a imagem que fazemos de Marilyn.
Sete dias com Marilyn é uma homenagem não somente ao cinema, também a todos os elementos que o constituem: os estúdios, os atores, os técnicos, os prazos, etc. Além disso, o filme é um retrato sensível do mito, Marilyn Monroe.

michelle01Sete dias com Marilyn (“My week with Marilyn”) – Direção: Rob Epstein e Jeffrey Friedman, 2013, EUA
O Príncipe Encantado (“The Prince and the Showgirl”) – Direção: Laurence Olivier, 1957, EUA- Inglaterra.

Mamãezinha Querida

O filme conta a história da conturbada relação entre a atriz Joan Crawford e sua filha adotiva, Christina. Crawford ficou famosa no cinema mudo, fez a passagem para o cinema falado, ficou esquecida e depois retornou. Ela é uma lenda de Hollywood.
Porém, após sua morte, Christina publicou um livro que denuncia os abusos físicos e emocionais que ela sofreu com a mãe, uma mulher controladora, histérica e instável. Mamãezinha querida (“Mamãezinha Querida”) é a adaptacão para o cinema da autobiografia de Christina. Faye Dunaway interpreta Joan Crawford, numa interpretação que gerou críticas positivas e negativas. O filme ficou conhecido pela cena em que Dunaway como Joan Crawford tem uma crise histérica ao encontrar cabides de ferro e grita: “No wire hangers!” (“Sem cabides de ferro!”).
O irônico é que um dos papéis mais marcantes de Joan Crawfort foi o de Mildred Pierce, em Alma em Suplício (“Mildred Pierce”), no qual ela intepreta uma mãe que faz grandes sacrifícios pela sua filha.

Mamãezinha querida (“Mamãezinha Querida”) – Direção: Frank Perry, 1981, EUA.
Alma em Suplício (“Mildred Pierce”) – Direção: Michael Curtiz, 1945, EUA.

Lovelace

Lovelace é a história da atriz pornô Linda Lovelace, famosa por protagonizar Garganta Profunda (“Deep Throat”). O filme mostra que Linda sofreu anos de violência doméstica e só participou de filmes pornográficos porque foi obrigada pelo ex-marido.lovelaceseyfriedLovelace – Direção: Rob Epstein e Jeffrey Friedman, 2013, EUA.
Garganta Profunda (“Deep Throat”) – Direção: Gerard Damiano, 1972, EUA.

 Chaplin
O maior ícone do cinema mundo também ganhou uma cinebiografia, em 1992. Chaplin é uma das figuras mais conhecidas e imitadas do mundo, por isso, o trabalho de Robert Downey Junior, no papel título, foi tão aclamado. Sua interpretação foi tão semelhante a Chaplin que ele acabou sendo indicado aos prêmios do Oscar e Golden Globes como melhor ator. Ele ganhou o BAFTA de melhor ator naquele ano.downeychaplinChaplin – Direção: Richard Attenborough, 1992, EUA.

Femme Fatale

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Dentre todos os gêneros americanos, o film noir é, com certeza, o mais sedutor. (Muitos questionam se ele é um gênero ou um movimento, mas vamos supor que ele seja um gênero.) Geralmente, gêneros cinematográficos são definidos através de um conjunto de elementos em comum, como iluminação, trama, figurino, ambientação, que se repetem em diferentes filmes. Um desses elementos também é a construção de personagens. E o film noir foi essencial para criação de um tipo, praticamente um mito, emblemático até hoje: a Femme Fatale.

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O film noir teve grande popularidade no pós-II Guerra. Naquele momento, os homens americanos voltavam do combate, impressionados e paranóicos pelos horrores da guerra. Além disso, precisavam recuperar seu espaço no mercado de trabalho, que agora estava repleto de mulheres. Elas se tornam suas rivais e não mais suas companheiras. Os valores e a estabilidade que eles conheciam mudaram. Por isso, o gênero noir traduz o clima de desconfiança, descrença e claustrofobia da época.

Os filmes desse gênero se caracterizavam pela atmosfera paranóica e claustrofóbica, tramas criminosas e personagens ambíguos, sem caráter e sem moral. São filmes em preto e branco, com grande uso de sombras, linhas tortas, ambientes urbanos, tudo para provocar o desconforto e passar a desconfiança sentida pelos personagens.

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Um desses personagens ambíguos era a mulher fatal. Durante muito tempo, o cinema se baseou na visão do homem (salvo algumas excecões). Dessa forma, o que definia o caráter de uma personagem feminina era sua relação com a própria sexualidade. Ao contrário da mulher boa e ideal (a virgem a espera de um bom homem ou a esposa que não tem vontade individual), as Femme Fatales tem o domínio sobre seu corpo e são ambiciosas. Elas não são totalmente independentes, precisam da presença masculina para realizar seus objetivos e usam a sexualidade para manipulá-los. Por isso, são tão ameaçadoras.

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São personagens ambíguas em seu caráter. A princípio, são lindas, sensuais e confiantes. O homem sonha com momentos de grande prazer ao lado delas. Mas logo, mostram sua face cruel, manipulando o homem para que ele faça exatamente o que ela quer. Geralmente, essa ação está ligada a um plano cruel de homicídio, roubo, mentiras, etc. Ela anda com naturalidade pelo submundo e não se intimida na presença de muitos homens, afinal, sabe como lidar com eles.

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A primeira vez que aparecem, já mostram sua sensualidade, seja através de um gesto, ou do próprio figurino que evidencia partes do corpo. É interessante notar, que, muitas vezes, as Femme Fatales surgem vestidas de branco, uma cor que simboliza a pureza, bondade e virgindade, deixando a ambiguidade dessas personagens ainda mais explícita. Seu visual é sempre exuberante: cabelos longos, maquiagem, assessórios, jóias e cigarro. Elas também estão quase sempre no centro do quadro e são beneficiadas pela luz, movimentação de câmera e angulação. Como se ela manipulasse até mesmo a equipe técnica do filme, atraindo toda atenção para si.

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Aqui vão alguns exemplos de Femme Fatales inesquecíveis. Em todos eles, elas são mulheres poderosas, inteligentes e sensuais que usam suas armas para determinarem o próprio futuro, ao invés de tê-lo estabelecido por um homem.

Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck)

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A primeira vez que o vendedor de seguros Walter Neff (Fred MacMurray) vê Phyllis ela está usando apenas uma toalha branca. Rapidamente, ela consegue convencê-lo a matar seu marido para ficar com o dinheiro do seguro.

Pacto de Sangue (“Double Indemnity”)  é a versão cinematográfica do livro Double Indemnity (título do filme em inglês) do autor James M. Cain, famoso pela sua literatura hardboiled (romances pessimistas cujo tema gira em torno de crimes, detetives, etc).

Pacto de Sangue (“Double Indemnity”) – Direção: Billy Wilder, 1944, EUA.

Cora Smith (Lana Turner)

Cora Smith (Lana Turner)

Em O Destino Bate a Sua Porta (“The Postman Always Rings Twice”), Cora tem uma vida incompatível com a que ela queria, tendo que viver no posto de gasolina na beira da estrada, gerido por seu marido velho. Até que aparece o jovem Frank Chambers (John Garfield), que é logo contratado para trabalhar ali. Os dois iniciam um romance e planejam matar o marido para ficar com o dinheiro.

O filme foi inspirado em outro livro de James M. Cain, The Postman Always Rings Twice (também o título do filme em inglês).

Vale a pena assistir as duas versões do filme. A de 1944 com Lana Truner como Cora é considerada uma das principais obras do gênero noir e a de 1981, com Jessica Lange e Jack Nicholson, com uma abordagem mais quente da história.

O Destino Bate À Sua Porta (“The Postman Always Rings Twice”) – Direção: Tay Garnett,1946, EUA.

O Destino Bate À Sua Porta (“The Postman Always Rings Twice”) – Direção: Bob Rafelson,1981, EUA.

Gilda (Rita Hayworth)

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“There was never a woman like Gilda”(“Nunca houve uma mulher como Gilda”) é a emblemática frase no cartaz do filme Gilda (“Gilda”). Muito mais do que a história, o que realmente ficou do filme foi a performance de Rita Hayworth. A primeira que vez que Gilda aparece, seu marido pergunta: “Gilda, are you decent?(“Gilda, você está decente?”), os americanos usavam essa expressão para perguntar se a pessoa estava vestida, ou se estava de camisola, roupas íntimas, etc.), de modo que ela surge na tela respondendo, irônica, “Me?” (“Eu?”). Como se Gilda nunca estivesse decente. As coreografias sensuais, o figurino provocante, a voz sedutora e, é claro, a presença da atriz nos deixam facinados pelo glamour da personagem. Uma vez, Rita Hayworth disse: “They go to bed with Gilda, and wake up with me”.

Gilda (“Gilda”) – Direção: Charles Vidor,1946, EUA.

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Para ler mais sobre o tema, sugiro a leitura o capítulo “Women in film noir“, de Janey Place no livro Women in film Noir.

PLACE, Janey. “Women in film noir” in KAPLAN, E. Ann (org.) Women in film noir. Londres: BFI, 1980.

E veja aqui uma lista completa de Femme Fatales.

Fred Astaire X Gene Kelly

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Quem ama musical fica na dúvida na hora de escolher: Fred Astaire ou Gene Kelly? Qual sapateia melhor? Qual foi mais inovador? Qual era mais glamuroso? Qual foi mais importante para o gênero musical?

As respostas são totalmente subjetivas. Cada um tem o seu favorito, mas a gente pode fazer comparações, né?

Background

Fred Astaire nasceu em 1899 e começou sua carreira no Vaudeville dançando com sua irmã Adele. Eles foram matriculados em escolas de dança e piano e seguiram boa parte da infância e adolescência se apresentando em shows, até estreiarem na Broadway em 1917. A dupla fazia sucesso por onde passava, mas se separaram quando ela casou com um lorde inglês. Logo depois, ele também se casou com uma socialite, indicando a ascenção social dos irmãos depois se tornarem estrelas da Broadway.

No mesmo ano, Fred partiu para Hollywood sozinho, onde fez o filme que o tornaria uma lenda: Voando Para o Rio (“Flying down to Rio”). Foi a primeira vez que ele dançou com Ginger Rogers e a química foi imediata. A platéia amou e o estúdio também.

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Gene Kelly nasceu em 1912 e começou a fazer aulas de dança quando criança por obrigação de sua mãe, embora ele não gostasse muito. Já adolescente, ele retomou as aulas e gostava de esportes. Durante a Depressão, Gene dava aulas de dança, e logo depois entrou para a faculdade. No fim da década de 30, participou de vários musicais na Broadway atuando, cantando, dançando e coreografando. Lá ele conheceu sua primeira mulher, Betsy Blair. Em 1941, ele estreiou em Hollywood, mas só se destacou ao estrelar, em 1944, Modelos (“Cover Girl”), ao lado de Rita Hayworth

Estilo

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Fred fazia o tipo aristocrata. Ele estabeleceu o uniforme masculino no musical: fraque e cartola. Fred era magro, um pouco baixo, e estava longe dos padrões de beleza estabelecidos para os galãs de Hollywood, mas isso não impediu que ele se tornasse uma força nas telas.

Já Gene era totalmente diferente. Ao contrário da imagem elegante e aristocrática de Fred, Gene era um cara atlético, menos europeu e mais americano. No filme Cantando na Chuva (“Singing in The Rain”), ele faz disso uma piada. Na primeira sequencia, o personagem de Kelly fala de sua vida antes da fama. Ao contrário da história que ele narra (um garoto de boa educação e preparo que chegou ao topo com dignidade), as imagens mostram um jovem de baixa renda e pouca instrução que fazia de tudo para conseguir se apresentar e fazer parte do sonhado “mundo do entretenimento”.

Acontece que Gene Kelly não ficava bem naquelas roupas formais, por isso, passou a incorporar em seu figurino um visual mais casual. Geralmente, Gene estava de sweater, camisetas polos demarcando sua boa forma, calças confortáveis e blazers. Um visual que lembrava as roupas de lazer do homem comum americano. A guerra havia acabado, eles não precisavam se preocupar com combates, a vida estava voltada para sua ascensão individual, através do trabalho, da família, da casa e da diversão. Esse visual “de lazer” aparece em Sinfonia de Paris (“An American In Paris”), por exemplo, e até Fred Astaire o adotou em filmes como A Roda da Fortuna (“The Band Wagon”).

Dança e Cinema

Os números de Fred costumavam misturar suas influências, fossem elas clássicas ou inpiradas na cultura de massa da periferia, como sapateado. Ele era perfeccionista e por isso, ensaiava muito antes das filmagens e repetia os takes muitas vezes até ficar como ele queria. Geralmente, seus filmes tinham, pelo menos, um número solo, um número com o par romântico e outro número mais divertido com algum parceiro.

Antes de Fred Astaire, as coreografias dos musicais apareciam através dos recursos cinematográficos: na formacão das dançarinas, na montagem e no ângulo da câmera. Quando ele entrou para o ramo, decidiu cortar esses efeitos. A câmera passou a ficar estática, frontal, capturando o corpo inteiro do dançarino e quase não havia cortes. Fred dizia: “Either the camera will dance, or I will” (“Ou dança a câmera ou danço eu”).

Abriu uma exceção em Núpcias Reais (“Royal Wedding”).  em que ele sapateia nas paredes e no teto de uma sala. O truque estava na sala que girava de forma mecânica, Fred ficava dançando no chão (não que isso fosse fácil: dançar enquanto a sala gira). O talento, o charme, o perfeccionismo e a elegância de Fred eram suficientes para não deixar ninguém piscar.

Quando Gene Kelly apareceu, nos anos 40, as regras de filmagem estabelecidas por Fred eram seguidas por todos os estúdios. Gene também se adequou a esse estilo, mas depois foi fazendo algumas modificações.

Gene trabalhava na frente e atrás das câmeras coreografando números (seus solos e os de coro) e co-dirigindo alguns filmes. Ao contrário de Fred, ele colocava movimentos de câmera, ângulos, montagem e efeitos especiais para enriquecer a experiência do espectador. Um exemplo, é a sequência em que dança com o ratinho Jerry (aquele que fugia sempre do Tom).

Ele misturava sapateado, dança latina com o clássico em uma obra para cultura de massa (filme musical). Por isso, ficou reconhecido por tornar mais popular e comercial o balé, que ele sempre colocava em uma dança mais romântica.

A impressão que dá ao assistir uma performance de Fred Astaire é de que aquilo é muito fácil de fazer. E a impressão que dá ao assistir uma performance de Gene Kelly é de que ele está se divertindo muito.

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Parcerias

Fred Astaire e Ginger Rogers

Com certeza a dupla mais famosa do musical é Fred Astaire e Ginger Rogers. Entretanto, alguns fofoqueiros dizem que os dois não se gostavam e, por eles, a parceria teria sido muito limitada. Fred não queria formar uma dupla fixa, agora que ele tinha se desassociado da irmã. Entretanto, os dois fizeram dez filmes juntos. Katherine Hepburn teria dito sobre os dois: “He gives her class, she gives him sex-appeal” (Ele lhe dá classe e ela lhe dá sex-appeal). Fred teve outras parceiras como Rita Hayworth, Cyd Charisse, Eleanor Powell, etc. Mas Ginger foi a maior.

Gene não teve nenhuma parceria no nível Fred & Ginger. Provavelmente, o diretor Stanley Donen foi seu parceiro mais marcante. A princípio, Donen seria o assistente de Gene em suas coreografias, mas eles acabam co-dirigindo diversos filmes, incluindo Um dia em Nova Iorque (“On The Town”) e Cantando na Chuva (“Singing in the rain”).

Existem seis atrizes que dançaram com as duas lendas: Cyd Charisse, Rita Hayworth, Debbie Reynolds, Judy Garland, Vera-Ellen, Leslie Caron. Fred Astaire e Gene Kelly já dançaram juntos no filme Ziegfield Follies no número The Babbit and The Broomgride (veja o número no final do post). Vários jornalistas perguntaram a Fred Astaire quem foi sua parceira preferida, ao que ele respondeu: Gene Kelly.

Conclusão

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Os musicais da época serviam de propaganda dos valores americanos e tanto Fred quanto Gene defendiam sua masculinidade através da dança (algo que pode parecer um paradoxo).

A verdade é que Gene veio depois de Fred, que era um modelo para ele. Ambos conseguiram colocar suas idéias nos filmes e eram dançarinos geniais, por isso são ícones do gênero musical. Fred trouxe a atencão para o virtuosismo do dançarino, deixando para trás os números que se baseavam apenas na beleza das coristas. E Gene pôde aprimorar esse olhar quando conseguiu integrar a dança aos elementos cinematográficos.

Principalmente, os dois tem o mérito de cumprirem com o principal objetivo do gênero: entretenimento. Seus personagens eram felizes e conseguiam resolver seus problemas com uma coreografia levando ao público uma mensagem de esperança e alegria. Até hoje, quando se assiste a um musical de Fred Astaire ou Gene Kelly, é incontrolável a vontade de dançar.