Femme Fatale

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Dentre todos os gêneros americanos, o film noir é, com certeza, o mais sedutor. (Muitos questionam se ele é um gênero ou um movimento, mas vamos supor que ele seja um gênero.) Geralmente, gêneros cinematográficos são definidos através de um conjunto de elementos em comum, como iluminação, trama, figurino, ambientação, que se repetem em diferentes filmes. Um desses elementos também é a construção de personagens. E o film noir foi essencial para criação de um tipo, praticamente um mito, emblemático até hoje: a Femme Fatale.

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O film noir teve grande popularidade no pós-II Guerra. Naquele momento, os homens americanos voltavam do combate, impressionados e paranóicos pelos horrores da guerra. Além disso, precisavam recuperar seu espaço no mercado de trabalho, que agora estava repleto de mulheres. Elas se tornam suas rivais e não mais suas companheiras. Os valores e a estabilidade que eles conheciam mudaram. Por isso, o gênero noir traduz o clima de desconfiança, descrença e claustrofobia da época.

Os filmes desse gênero se caracterizavam pela atmosfera paranóica e claustrofóbica, tramas criminosas e personagens ambíguos, sem caráter e sem moral. São filmes em preto e branco, com grande uso de sombras, linhas tortas, ambientes urbanos, tudo para provocar o desconforto e passar a desconfiança sentida pelos personagens.

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Um desses personagens ambíguos era a mulher fatal. Durante muito tempo, o cinema se baseou na visão do homem (salvo algumas excecões). Dessa forma, o que definia o caráter de uma personagem feminina era sua relação com a própria sexualidade. Ao contrário da mulher boa e ideal (a virgem a espera de um bom homem ou a esposa que não tem vontade individual), as Femme Fatales tem o domínio sobre seu corpo e são ambiciosas. Elas não são totalmente independentes, precisam da presença masculina para realizar seus objetivos e usam a sexualidade para manipulá-los. Por isso, são tão ameaçadoras.

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São personagens ambíguas em seu caráter. A princípio, são lindas, sensuais e confiantes. O homem sonha com momentos de grande prazer ao lado delas. Mas logo, mostram sua face cruel, manipulando o homem para que ele faça exatamente o que ela quer. Geralmente, essa ação está ligada a um plano cruel de homicídio, roubo, mentiras, etc. Ela anda com naturalidade pelo submundo e não se intimida na presença de muitos homens, afinal, sabe como lidar com eles.

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A primeira vez que aparecem, já mostram sua sensualidade, seja através de um gesto, ou do próprio figurino que evidencia partes do corpo. É interessante notar, que, muitas vezes, as Femme Fatales surgem vestidas de branco, uma cor que simboliza a pureza, bondade e virgindade, deixando a ambiguidade dessas personagens ainda mais explícita. Seu visual é sempre exuberante: cabelos longos, maquiagem, assessórios, jóias e cigarro. Elas também estão quase sempre no centro do quadro e são beneficiadas pela luz, movimentação de câmera e angulação. Como se ela manipulasse até mesmo a equipe técnica do filme, atraindo toda atenção para si.

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Aqui vão alguns exemplos de Femme Fatales inesquecíveis. Em todos eles, elas são mulheres poderosas, inteligentes e sensuais que usam suas armas para determinarem o próprio futuro, ao invés de tê-lo estabelecido por um homem.

Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck)

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A primeira vez que o vendedor de seguros Walter Neff (Fred MacMurray) vê Phyllis ela está usando apenas uma toalha branca. Rapidamente, ela consegue convencê-lo a matar seu marido para ficar com o dinheiro do seguro.

Pacto de Sangue (“Double Indemnity”)  é a versão cinematográfica do livro Double Indemnity (título do filme em inglês) do autor James M. Cain, famoso pela sua literatura hardboiled (romances pessimistas cujo tema gira em torno de crimes, detetives, etc).

Pacto de Sangue (“Double Indemnity”) – Direção: Billy Wilder, 1944, EUA.

Cora Smith (Lana Turner)

Cora Smith (Lana Turner)

Em O Destino Bate a Sua Porta (“The Postman Always Rings Twice”), Cora tem uma vida incompatível com a que ela queria, tendo que viver no posto de gasolina na beira da estrada, gerido por seu marido velho. Até que aparece o jovem Frank Chambers (John Garfield), que é logo contratado para trabalhar ali. Os dois iniciam um romance e planejam matar o marido para ficar com o dinheiro.

O filme foi inspirado em outro livro de James M. Cain, The Postman Always Rings Twice (também o título do filme em inglês).

Vale a pena assistir as duas versões do filme. A de 1944 com Lana Truner como Cora é considerada uma das principais obras do gênero noir e a de 1981, com Jessica Lange e Jack Nicholson, com uma abordagem mais quente da história.

O Destino Bate À Sua Porta (“The Postman Always Rings Twice”) – Direção: Tay Garnett,1946, EUA.

O Destino Bate À Sua Porta (“The Postman Always Rings Twice”) – Direção: Bob Rafelson,1981, EUA.

Gilda (Rita Hayworth)

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“There was never a woman like Gilda”(“Nunca houve uma mulher como Gilda”) é a emblemática frase no cartaz do filme Gilda (“Gilda”). Muito mais do que a história, o que realmente ficou do filme foi a performance de Rita Hayworth. A primeira que vez que Gilda aparece, seu marido pergunta: “Gilda, are you decent?(“Gilda, você está decente?”), os americanos usavam essa expressão para perguntar se a pessoa estava vestida, ou se estava de camisola, roupas íntimas, etc.), de modo que ela surge na tela respondendo, irônica, “Me?” (“Eu?”). Como se Gilda nunca estivesse decente. As coreografias sensuais, o figurino provocante, a voz sedutora e, é claro, a presença da atriz nos deixam facinados pelo glamour da personagem. Uma vez, Rita Hayworth disse: “They go to bed with Gilda, and wake up with me”.

Gilda (“Gilda”) – Direção: Charles Vidor,1946, EUA.

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Para ler mais sobre o tema, sugiro a leitura o capítulo “Women in film noir“, de Janey Place no livro Women in film Noir.

PLACE, Janey. “Women in film noir” in KAPLAN, E. Ann (org.) Women in film noir. Londres: BFI, 1980.

E veja aqui uma lista completa de Femme Fatales.

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