Autor: Anita

O Medo Comunista em Hollywood – Parte 2

Veja a parte 1 aqui.

ALIANÇA EUA-URSS
Durante o período de aliança entre EUA e URSS na Segunda Guerra, alguns filmes pró-União Soviética foram produzidos. Com chegada da Guerra Fria, a URSS virou o maior inimigo americano. Esses filmes foram considerados propagandas comunistas e muitos tiveram que ser reeditados, para mostrar um outro ponto-de-vista.

tender comradeMulheres de Ninguém (“Tender Comrade”). Créditos: A Certain Cinema.

Baseado em relatos reais, Missão em Moscou (“Mission to Moscow”) narra as impressões de um embaixador americano que volta da URSS com uma visão pró-União Soviética e em defesa de Stalin.
Canção da Rússia (“Song of Russia”) conta uma história de amor entre um americano e uma Russa antes da invasão alemã. Esse filme foi considerado subversivo porque mostra os Russos como pessoas alegres que sorriam.
Mulheres de Ninguém (“Tender Comrade”) apresenta uma protagonista grávida que trabalha em um fábrica enquanto o marido luta na Guerra. Ela passa a morar com outras mulheres americanas dividindo tudo igualmente, esperando os maridos retornarem da Guerra. O senso de coletivo daquelas mulheres proletárias foi visto como uma propaganda comunista.
A questão da divisão igual de bens e as noções de trabalho coletivo também aparecem em A Estrela do Norte (“North Star”). O filme mostra a resistência de agricultores ucranianos que vivem em fazendas coletivas, numa cidade pequena invadida pelos nazistas.

PROPAGANDA ANTI-COMUNISTA
O “medo vermelho” tomou conta da sociedade americana, e Hollywood aderiu a causa anti-comunista. Os filmes retratavam os terrores da sociedade soviética, as dificuldades da vida socialista e os crimes de Guerra cometidos pelos Russos.

pier13Nuvens de Tempestade (“The Woman on The Pier 13”). Créditos: DVD Beaver.

Em Aventura Perigosa (“Big Jim McLaine”), dois investigadores da HUAC perseguem comunistas no Havaí.
Nuvens de Tempestade (“The Woman on The Pier 13”), mostra um homem recém-casado, que, no passado, se afiliou ao Partido Comunista. Agora, os membros do partido o chantageiam para conseguirem o que querem. O primeiro título do filme inglês seria “Eu Casei com um Comunista” (“I Married a Communist”) mas o estúdio resolver colocar um título menos polêmico.
Em A Sombra da Noite (“Night People”), Gregory Peck vive um agente da CIA trabalhando na Berlim Oriental, que precisa fazer uma perigosa negociação com os comunistas.

communistPoster de Nuvens de Tempestade (“The Woman on The Pier 13”) com o título alternativo “Eu Casei com um Comunista” (“I Married a Communist”). Créditos: Wikipedia.

IMPACTOS DA LISTA NEGRA
Com a política de investigação conhecida como “Macartismo”, o governo americano interrogava diversos cidadãos que poderiam ter ligações com o Partido Comunista. Hollywood não ficou de fora, e diversos profissionais da indústria foram convocados a se apresentar perante um comitê especial. Cooperar com as investigações significava denunciar conhecidos. Quando um interrogado se recusava a dar nomes, entrava para a lista negra definitivamente, e não conseguia mais encontrar emprego no cinema.

waterfrontSindicato dos Ladrões (“On The Waterfront”). Créditos: DVD Beaver.

O diretor Elia Kazan, o roteirista Budd Schulberg e o ator Lee J. Cobb foram delatores conhecidos no Macarstimo. Após serem muito criticados por sua ação, eles fizeram o filme Sindicato dos Ladrões (“On The Waterfront”), que procura justificar o ato da delação. O filme foi um grande sucesso de público e crítica, tendo sido indicado a 12 Oscars, e ganhado 8, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção.
Kazan ainda dirigiu Viva Zapata! com roteiro de Lester Cole, um dos “Dez de Hollywood” que foi preso antes de terminá-lo. Viva Zapata! é uma cinebiografia do revolucionário mexicano, Emiliano Zapata.
Após sair da prisão, um dos “Dez de Hollywood”, Herbert Biberman dirigiu Sal da Terra (“Salt of the Earth”), sobre uma greve de mineiros no Novo Mexico. O filme é quase um documentário, com apenas cinco atores e o restante do elenco sendo formado pelos habitantes locais e mineiros. A equipe era formada por diversos profissionais do cinema enquadrados na lista negra, como o roteirista Michael Wilson, o produtor Paul Jarrico, dentre outros, incluindo o próprio diretor. O filme foi considerado subversivo, uma propaganda comunista, entrou para a lista negra e sofreu boicote tanto do público quanto por grande parte dos donos de cinemas que se recusaram a exibi-lo.

zapataViva Zapata! Créditos: DVD Beaver.

 DECLÍNIO DO MACARTISMO
O Macartismo começou a perder sua popularidade em meados da década de 50 e Hollywood pôde revidar. Foram produzidos filmes que condenavam o período de “Caça as Bruxas” diretamente ou de forma metafórica. Os artistas e técnicos da lista negra voltaram a aparecer nos créditos dos filmes. E as investigações da HUAC começaram a perder o apoio popular.

spartacusSpartacus. Créditos: DVD Beaver.

O Despertar das Tormentas (“Storm Center”) estrelando Bette Davis criticava claramente o terror propagado pelo Macartismo e pela Huac. No filme, o Comitê exige que uma bibliotecária retire o livro “O Sonho Comunista” (“The Communist Dream”) da coleção da biblioteca. Ela se recusa a fazer isso, então é demitida e taxada de subversiva.
Charlie Chaplin foi um dos mais famosos artistas a integrarem a Lista Negra de Hollywood. Vivendo na Europa, escreveu, dirigiu e protagonizou Um Rei em Nova York (“A King In New York”) em 1957. O filme é uma crítica do artista a histeria da Era McCarthy e teve boa repercussão na Europa, mas quase nenhuma distribuição nos EUA.
Em 1960, o ator Kirk Douglas fez questão que o nome de Dalton Trumbo entrasse nos créditos do filme Spartacus. Aquela atitude ajudaria a acabar com a Lista Negra. Era a primeira vez que Trumbo aparecia nos créditos do filme, antes ele usava o nome Sam Jackson. Algumas pessoas protestavam na frente do cinema. O Presidente Kennedy ultrapassou os protestos, assistiu ao filme e disse que gostou. Esse ato garantiu a popularidade de Spartacus.

kinginnewyorkUm Rei em Nova York (“A King In New York”). Créditos: DVD Beaver.

RETRATOS DA ÉPOCA
A partir da década de 70, diversos filmes foram produzidos com os temas: Comunismo, Macartismo, Caça as Bruxas e Lista Negra. Até hoje, o período é visto como um dos mais sombrios da história americana. O sindicato dos roteiristas continuam se esforçando para creditar nomes da lista negra em seus trabalhos.

redsReds. Créditos: DVD Beaver.

Em Testa de Ferro Por Acaso (“The Front”), Woody Allen é Howard Prince, um apostador que tem um amigo roteirista. O amigo está na lista negra, então Prince aceita que ele assine usando seu nome nos roteiros, ganhando, em troca, parte de seu salário. O filme contou com vários nomes listados, cujo ano em que foram listados aparece nos créditos finais.
Warren Beatty interpreta o jornalista John Reed em Reds. Reed era um socialista e escreveu o livre “Dez Dias que Abalaram o Mundo” (“Ten Days that Shook the World”), em que ele narra os eventos da Revolução Russa e divulga para o mundo espírito coletivo dos soviéticos.
Nosso Amor de Ontem (“The Way We Were”) fala de um casal, interpretado por Robert Redford e Barbara Streisand, com diferentes visões políticas. A relação dos dois é marcada pelo período do “Medo Vermelho”, dos anos 30 até os anos 60. Redford também participou do filme Três Dias do Condor (“Three Days of Condor”) que criticava algumas ações do Governo Americano, através da CIA.

goodnightandgoodluckBoa Noite e Boa Sorte (“Good Night and Good Luck”). Créditos: DVD Beaver.

Culpado por Suspeita (“Guilty by Suspicion”) e Boa Noite e Boa Sorte (“Good Night and Good Luck”) são dois exemplos mais recentes que retratam a era Macartista. No primeiro, Robert De Niro interpreta um diretor que precisa delatar colegas de trabalho para não ficar desempregado. E o segundo, mostra a queda do senador McCarthy, a partir do empenho de um jornalista em derrubá-lo.

 

Missão em Moscou (“Mission to Moscow”) – Direção: Michael Curtiz. 1943.

Canção da Rússia (“Song of Russia”) – Direção: Gregory Ratoff e Laslo Benedek.

Mulheres de Ninguém (“Tender Comrade”) – Direção: Edward Dmytryk

A Estrela do Norte (“The North Star”) – Direção: Lewis Milestone. 1943.

Aventura Perigosa (“Big Jim McLaine”) – Direção: Edward Ludwig. 1952.

Nuvens de Tempestade (“The Woman on Pier 13”) – Direção: Robert Stevenson. 1949.

A Sombra da Noite (“Night People”) – Direção: Nunnally Johnson. 1954.

Sindicato dos Ladrões (“On The Waterfront”) – Direção: Elia Kazan. 1954.

Viva Zapata! – Direção: Elia Kazan. 1952.

Sal da Terra (“Salt of the Earth”) – Direção: Herbert J. Biberman. 1954.

O Despertar das Tormentas (“Storm Center”) – Direção: Daniel Taradash. 1956.

Um Rei em Nova York (“A King In New York”) – Direção: Charles Chaplin. 1957.

Spartacus – Direção: Stanley Kubrick. 1960.

Testa de Ferro Por Acaso (“The Front”) – Direção: Martin Ritt. 1976.

Reds – Direção: Warren Beatty. 1981.

Nosso Amor de Ontem (“The Way We Were”) – Direção: Sydney Pollack. 1973.

Três Dias do Condor (“Three Days of Condor”) – Direção: Sydney Pollack. 1975.

Culpado por Suspeita (“Guilty by Suspicion”) – Direção: Irwin Winkler. 1991.

Boa Noite e Boa Sorte (“Good Night and Good Luck”) – Direção: George Clooney. 2005.

O medo comunista em Hollywood – parte 1

O comunismo sempre fora um um alvo do governo americano. Em 1918, criaram o Comitê de Atividades Anti-Americanas, conhecido como HUAC (House Committee on Un-American Activities) para investigar possíveis membros do Partido Comunista, simpatizantes e evitar qualquer tipo de prática e disseminação de idéias comunistas nos EUA.

Nos anos 40, a HUAC começou a buscar ligações entre a indústria do cinema e o Partido Comunista, com medo de que os filmes servissem como propaganda comunista. Um antigo membro do partido comunista teria apresentado uma lista com o nome de 42 integrantes de Hollywood, dentre eles Humprhey Bogart e Katherine Hepburn que poderiam ser simpatizantes do partido. Após se apresentarem perante o comitê, todos foram liberados pelo presidente do HUAC, exceto o ator Lionel Stander, de Nasce Uma Estrela (“A Star is Born”), demitido pelo estúdio após o episódio. Ainda assim, a HUAC não dispensou Hollywood tão fácil de suas investigações.

hollyten12Créditos: Tagg.com

Em 1947, a HUAC criou uma lista negra apontando 43 nomes de atores, diretores, produtores e, principalmente roteiristas, ligados ao Partido Comunista. Dentre eles, onze foram intimados a se apresentarem perante o HUAC, e dez se negaram a depor. O único que concordou em responder as perguntas do comitê foi o dramaturgo Bertolt Brecht.

Ficaram conhecidos como “Os Dez de Hollywood”. Todos se recusaram a responder a pergunta: “Você é ou já foi um membro do Partido Comunista?” e apelaram pela Primeira Emenda que confere o direito a liberdade de expressão. Essa tentativa de nada adiantou e os dez foram citados por desrespeito ao congresso, sob pena de reclusão. Eram eles:

RING LARDNER JR., roteirista de Laura e A Mulher do Dia (“The Woman of the Year”).
JOHN HOWARD LAWSON, roteirista de Comboio para o Leste (“Action in the North Atlantic”).
ALBERT MALTZ, roteirista de Alma Torturada (“This Gun for Hire”)
SAMUEL ORNITZ, roteirista de Fugitivos do Terror (“Three Faces West”)
ADRIAN SCOTT, produtor de Até a vista, querida (“Murder, My Sweet”) e Rancor (“Crossfire”)
DALTON TRUMBO, roteirista de Mortalmente Perigosa (“Gun Crazy”)
ALVAH BESSIE, roteirista de Um Punhado de Bravos (“Objective Burma”)
EDWARD DMYTRYK, diretor de Até a vista, querida (“Murder, My Sweet”) e Rancor (“Crossfire”)
HERBERT BIBERMAN, diretor e roteirista de Os Super Homens (“The Master Race”)
LESTER COLE, roteirista de Viva Zapata!

hollyten02Nove dos “10 de Hollywood”. Créditos: UCLA Library

O caso dos “Dez de Hollywood” gerou dois movimentos opostos envolvendo os trabalhadores de Hollywood.

Humphrey Bogart, Lauren Bacall, John Huston, dentre outras personalidades fundaram o Comitê Pela Primeira Emenda (Comittee for the First Amendment) para protestar contra o ataque da HUAC a Hollywood e, principalmente, em defesa dos “Dez”. Houve ainda um documento com 204 assinaturas defendendo os “Dez de Hollywood”,

Entretanto, a MPAA (Motion Picture Association of America), associação que reunia todos os grandes estúdios de Hollywood, anunciou que demitiria os “Dez” sem pagamento, e não os contrataria até que se declarassem não-comunistas. Isso valeria também para outros que apareceressem na lista negra.

A causa anti-comunista tinha apoio de diversos nomes da indústria. Walt Disney fundou o MPA (Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals), numa tradução literal, Aliança de Filmes Pela Preservação dos Ideais Americanos. Barbara Stanwick, Gary Cooper, Cecil B. DeMille, Ginger Rogers, Ronald Reagan, John Wayne, King Vidor, dentre outros também integravam a organizacão, que tinha como objetivo impedir que as idéias comunistas e fascistas atingissem a indústria.

hollyten13Humphrey Bogart e sua mulher, Lauren Bacall lideram uma passeada contra as investigações da HUAC. Créditos: MSN

Em 1950, os dez foram presos pelo crime de desrespeito ao congresso. Naquela década, a lista negra continuou crescendo não apenas em Hollywood. O medo do comunismo cresceu com o surgimento da figura do Senador McCarthy e instaurou-se uma política de perseguição a qualquer um que demonstrasse simpatizar com o comunismo. Esse período ficou conhecido como Macartismo ou “Caça as Bruxas”, que, hoje em dia, se tornou sinônimo de perseguição políticas e práticas anti-democráticas.

O pânico se instaurou em Hollywood, entrar para lista negra não era difícil, e significava o fim da carreira. Todos queriam se certificar de que não seriam considerados simpatizantes. Humphrey Bogart, por exemplo, escreveu um artigo afirmando que ele não era comunista. Vários trabalhadores da indústria do Cinema foram chamados para depor, alguns denunciavam amigos para poder se livrar das acusações e os que se recusavam a coolaborar perdiam o emprego.

O diretor Edward Dmytryk, um dos “Dez”, pode sair antes da prisão, ao se declarar um comunista arrependido e delatar alguns nomes. O diretor Elia Kazan também delatou conhecidos e colegas de trabalho, acabando com suas carreiras. Um deles foi o ator John Garfield, de O Destino Bate à Sua Porta (“The Postman Always Rings Twice”) e A Luz é Para Todos (“Gentleman’s Agreement”), que não aguentou a pressão de estar na lista negra e morreu de infarte em 1952.

hollyten05Créditos: UCLA Library

Carl Forman escreveu também o roteiro de Matar Ou Morrer (“High Noon”), um filme que simbolizava a “caça as bruxas” e, considerado até hoje, um dos maiores faroestes. O xerife de uma cidade do oeste tenta convencer a população de uma cidade a lutar contra um assassino que ele prendeu há anos e que está de volta para se vingar. Entretanto, todos o abandonam e ele precisa se defender sozinho. Forman entrou para a lista negra logo depois.

Para driblar a falta de emprego, os profissionais saíram do país para trabalhar em produções internacionais e houve, ainda, alguns casos de suicídios.

Os roteiristas que estavam na lista negra tinham outras alternativas: escreviam utilizando pseudônimos ou dando créditos a outros amigos da indústria. Foi o caso de Dalton Trumbo, um dos “Dez” que não levou crédito por ter trabalhado no roteiro de A Princesa e o Plebeu (“Roman Holliday”) até 2011, 60 anos depois da estréia do filme. Carl Forman e Michael Wilson, ambos listados, escreveram A Ponte do Rio Kwai (“The Bridge on the River Kwai”) às escondidas. O filme ganhou o Oscar de “Melhor Roteiro Adaptado”, mas quem o recebeu foi o autor francês do romance que originou o filme, Pierre Boulle, que não falava inglês.

highnoon02Imagem do filme Matar Ou Morrer.  Créditos: DVD Beaver.

(CONTINUA)

 

Nasce Uma Estrela (“A Star is Born”) – Direção: William A. Wellman e Jack Conway. 1937. EUA.

Laura – Direção: Otto Preminger. 1944. EUA.

A Mulher do Dia (“The Woman of the Year”) – Direção: George Stevens. 1942. EUA.

Comboio para o Leste (“Action in the North Atlantic”) – Direção: Lloyd Bacon, Byron Haskin e Raoul Walsh. 1943. EUA.

Alma Torturada (“This Gun for Hire”)– Direção: Frank Tuttle. 1942. EUA.

Fugitivos do Terror (“Three Faces West”) – Direção: Bernard Vorhaus. 1940. EUA.

Até a vista, querida (“Murder, My Sweet”) – Direção: Edward Dmytryk. 1944. EUA.

Rancor (“Crossfire”) – Direção: Edward Dmytryk. 1947. EUA.

Mortalmente Perigosa (“Gun Crazy”) – Direção: Joseph H. Lewis. 1950. EUA.

Um Punhado de Bravos (“Objective, Burma!”) – Direção: Raoul Walsh. 1945. EUA.

Os Super Homens (“The Master Race”) – Direção: Herbert J. Biberman. 1944. EUA.

Viva Zapata!– Direção: Elia Kazan. 1952. EUA.

O Destino Bate à Sua Porta (“The Postman Always Rings Twice”) – Direção: Tay Garnett. 1946. EUA.

A Luz é Para Todos (“Gentleman’s Agreement”) – Direção: Elia Kazan. 1947. EUA.

 A Princesa e o Plebeu (“Roman Holliday”) – Direção: William Wyler. 1953. EUA

A Ponte do Rio Kwai (“The Bridge on the River Kwai”) – Direção: David Lean. 1957. EUA.

Matar Ou Morrer (“High Noon”) – Direção: Fred Zinnemann. 1952. EUA.

Bette Davis X Joan Crawford

Diz a lenda que duas das maiores atrizes de Hollywood, Bette Davis e Joan Crawford se odiavam.

 babyjane04Créditos: Fanpop.

Joan Crawford nasceu em 1905, começou a carreira como dançarina, e logo estreiou no cinema. Alcançou o status de “estrela de cinema” nos anos 30. Bette Davis nasceu em 1908. Começou a atuar no teatro, em algumas produções da Broadway. Em 1932, iníciou sua carreira no cinema.

joan05Joan Crawford. Créditos: DVD Beaver.

 Bette tinha fama de ser difícil de se relacionar nos sets e era famosa por seus comentários ácidos. Além disso, era vista como uma mulher forte, por ser, uma das poucas atrizes que tinham o respeito dos estúdios para escolher seus próprios filmes. Joan ficou conhecida por ser a personificação do glamour de Hollywood. Uma atriz linda, sempre muito bem vestida e elegante. Por isso, Bette Davis uma vez disse: “Ela se tornou uma estrela do cinema, e eu me tornei uma grande atriz.” (“She became a movie star, and I became the great actress.”).

Bette Davis - by George Hurrell 1940 - The LetterBette Davis. Créditos: DVD Beaver.

Em 1940, Joan e Bette eram atrizes respeitadas e costumavam interpretar grandes heroínas. Para Hollywood, as duas tinham um perfil semelhante,
Em 1945, Joan Crawford ganhou o seu primeiro e único Oscar de “Melhor Atriz” pelo filme Almas em Suplício (“Mildred Pierce”). Ela queria muito fazer a protagonista do filme, mas o papel foi, inicialmente, oferecido a Davis, que o negou para fazer O Coração Não Envelhece (“The Corn Is Green”), inspirado em uma peça da Broadway. O mesmo aconteceu dois anos depois, Bette não trabalhou em Fogueira de Paixão (“Possessed”) porque tinha acabado de dar a luz a sua primeira filha, e assim, Joan Crawford acabou fazendo a protagonista no lugar de Davis.
É claro que elas não gostavam de ser comparadas, então Bette declarou: Nós somos dois tipos totalmente diferentes. “Eu não consigo imaginar nenhum papel que eu fiz que Joan pudesse fazer. Nenhum. Você consegue?” (“We were two different types entirely. I can’t think of a single part I played that Joan could do. Not one. Can you?”)

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Joan Crawford em Almas em Suplício (“Mildred Pierce”). Créditos:
DVD Beaver.

Em 1950, queriam que Bette e Joan trabalhassem juntas no filme À Margem da Vida (“Caged”), mas Bette teria se negado dizendo que jamais aparecia num filme “de lésbicas”.

Bette protagonizou o filme Lágrimas Amargas (“The Star”), em 1952, em que interpreta uma ex-grande atriz, que agora está decadente, sem trabalho e sem seu antigo status. Bette declarou que teria se inspirado em Joan Crawford e no glamour que ela insistia carregar. Joan teria se defendido dizendo: É claro que eu ouvi dizer que ela supostamente estaria me interpretando, mas eu não acreditei. Você viu o filme? Não poderia ser eu. Bette parecia velha demais e terrivelmente acima do peso”. (“Of course I had heard she was supposed to be playing me, but I didn’t believe it. Did you see the picture? It couldn’t possibly be me. Bette looked so old, and so dreadfully overweight.”)

starbetteBette Davis em Lágrimas Amargas (“The Star”). Créditos: Fanpop.

 Com a chegada dos anos 60, as duas estavam mais velhas, suas carreiras estagnadas sem nenhum filme de grande sucesso. Foi então que surgiu uma oportunidade: o filme O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (“What Ever Happened to Baby Jane?”), um thriller psicológico dirigido por Robert Aldrich. O diretor convidou Crawford para um dos papéis principais, e ela apresentou o projeto Bette Davis. Davis, então, teria feito duas perguntas cruciais ao diretor para aceitar o trabalho:
1- Ela seria Baby Jane?
2- Ele estava de caso com Crawford?
As respostas foram “Sim” e “Não”, respectivamente, então Bette Davis estava dentro.

babyjane01Bette e Joan em O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (“What Ever Happened to Baby Jane?”). Créditos: DVD Beaver.

O Que Terá Acontecido a Baby Jane? conta a história de Baby Jane (Bette Davis), uma ex-estrela infantil envelhecida, psicótica e decadente que aterroriza sua irmã Blanche (Crawford), também uma ex-atriz de sucesso que agora está numa cadeira de rodas.
Apesar da rivalidade fora das telas, as duas divas entendiam a importância do filme para suas carreiras e, de acordo com o diretor, se comportaram de forma profissional no set. Ou quase. É sabido que, durante as filmagens, elas aproveitaram a relação conturbada entre suas personagens para se “torturarem” fora da ficção.
Joan Crawford mandava presentes e bilhetes para “conquistar” a equipe, e Bette, irritada, teria enviado um bilhete a ela dizendo que “parasse com aquela porcaria” (“Get Off The Crap“).
As duas falavam mal uma da outra para o diretor, no final do dia. Bette Davis também se referia a Joan como “vadia falsa”, mesmo se ela escutasse.

Em uma determinada cena, Bette tinha que dar bater em Joan, que ficou com medo que ela a machucasse de verdade, então pediu uma dublê. Entretanto, para um close-up, Joan teve que fazer. Quando Bette bateu, Joan gritou e a filmagem parou. Bette tentou se justificar: “Eu mal toquei nela” (“I barely touched her“).

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Créditos:
DVD Beaver.

 Depois, em uma cena em que Bette carrega e arrasta Joan, ela se vingou. Joan sabia dos problemas na coluna de Bette, então fez de forma que ficasse mais pesada o possível, provavelmente usando pesos escondidos no seu coprpo. Aproveitou para atrapalhar a cena o máximo possível, e vários takes tiveram que ser feitos. Bette, ao final disso, teria ficado alguns dias sem retornar ao set, cuidando da coluna.
Sobre esse episódio, Joan comentou: “Pesos! E deixar Bette contar a todos que eu era pesada como um elefante. De jeito nenhum. Eu posso não ter facilitado para ela me carregar fora da cama, como eu poderia, pelo menos no começo, mas quando você é profissional, você supera qualquer animosidade que possa sentir e ajuda seu colega.” (“Weights! And have Bette tell everyone I was as heavy as an elephant. Absolutely not. I may not have made it as easy for her to lift me out of the bed as I could have, at least at first, but when you’re a pro you get over any animosity you may feel and help your fellow player out.”)

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Créditos: DVD Beaver.

Davis e Crawford tiveram um salário considerado baixo, porém, tinham uma porcentagem do lucro dos filmes, que acabou sendo um sucesso de público e crítica. Os boatos da implicância entre as protagonistas foram ótimos para a publicidade do filme. As duas receberam elogios pelas performances e foram indicadas a alguns prêmios. Entretanto, somente Bette foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz, Joan não. E esse foi, provavelmente, o evento que mais marcou a rivalidade entre elas.

Chateada por não ter sido indicada, Joan contactou as outras atrizes que concorriam na mesma categoria e se ofereceu para aceitar o prêmio, caso elas não pudessem ir a cerimônia naquele ano.
Na hora de anunciar a vencedora, Joan e Bette estavam juntas nos bastidores. Davis era a favorita, então ela já tinha entregado seu cigarro e a bolsa para um amigo segurar, quando fosse receber o prêmio. Entretanto, a vencedora foi Anne Bancroft, que não pôde comparecer. Joan teria dito a Bette: “Com licença” e foi até o palco, sorrindo, triunfante, aceitar o prêmio que Bette perdeu.
É claro que Davis ficou furiosa e acusou Joan de ter conspirado com os membros da Academia para que ela não ganhasse.
O vídeo abaixo mostra a satisfação de Joan ao buscar o Oscar por Anne Bancroft.

Durante toda carreira, os jornalistas sempre perguntavam para as duas como foi trabalhar com a inimiga, e elas não perdiam a chance de se alfinetar. Uma vez, Bette teria dito: “O melhor momento que tive com Joan Crawford foi quando a empurrei escada a baixo em O Que Terá Acontecido a Baby Jane?(“The best time I ever had with Joan Crawford was when I pushed her down the stairs in Whatever Happened to Baby Jane?”). E Joan alegou “Claro, ela roubou alguma das minhas maiores cenas, mas o engraçado é que, quando você assiste ao filme de novo, ela as roubou porque ela parecia uma paródia de si mesma, e eu ainda tinha algo de uma estrela.” (“Sure, she stole some of my big scenes, but the funny thing is, when I see the movie again, she stole them because she looked like a parody of herself, and I still looked like something of a star.”)

babyjane05Créditos: Fanpop.


No ano seguinte, Robert Aldrich propôs a Crawford e Davis que elas voltassem a trabalhar juntas em outro thrilles dirigido por ele Com a Maldade Na Alma (“Hush… Hush, Sweet Charlotte”). Surpreendentemente, elas aceitaram, mas, devido as provocações de Bette, Joan teria sido internada e foi substituída pela atriz Olivia de Havilland. Quando ficou sabendo disso, Crawford disse: “Eu ouvi a notícia sobre a minha substituição no rádio, deitada na cama do hospital… Eu chorei por nove horas”(“I heard the news of my replacement over the radio, lying in my hospital bed” … I cried for 9 hours.”)

hushhushBette Davis emCom a Maldade Na Alma (“Hush… Hush, Sweet Charlotte”). Créditos: DVD Beaver.

Em 1977, Joan Crawford morreu. Alguns anos depois, sua filha adotiva lançou um livro que revelava os maltratos e abusos que sofreu da mãe. Um filme sobre a relação das duas foi feito, com Faye Dunaway como Crawford, chamado Mamãezinha querida (“Mommy Dearest”) (veja mais nesse post). Quando Joan morreu, Bette disse: “Não se deve falar mal dos mortos, somente bem. Ela está morta… Bom. (You should never say bad things about the dead, you should only say good . . . Joan Crawford is dead. Good.”). Bette morreu em 1989.

joanebetteCréditos: Fanpop.

 

Almas em Suplício (“Mildred Pierce”) – Direção: Michael Curtiz. 1945. EUA.

O Coração Não Envelhece (“The Corn Is Green”) – Direção: Irvin Rapper. 1945. EUA.

Fogueira de Paixão (“Possessed”) – Direção: Curtis Bernhardt. 1947. EUA.

À Margem da Vida (“Caged”) – Direção: John Cromwell. 1950. EUA.

Lágrimas Amargas (“The Star”) – Direção: Stuart Heisler. 1952. EUA.

O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (“What Ever Happened to Baby Jane?”) – Direção: Robert Aldrich. 1962. EUA.

Com a Maldade Na Alma (“Hush… Hush, Sweet Charlotte”) – Direção: Robert Aldrich. 1964. EUA.

Mamãezinha querida (“Mommy Dearest”) – Direção: Frank Perry, 1981, EUA.

Grace Kelly – Persona – parte 2

Continuando o post sobre a persona de Grace Kelly, um pouco sobre sua filmografia e personagens.

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Grace Kelly em Ladrão de Casaca (“To Catch A Thief”). Créditos: Clothes on Film.

Grace foi a loira número um do diretor Alfred Hitchcock, com quem trabalhou nos filmes Janela Indiscreta (“Rear Window”), Disque M para Matar (“Dial M for Murder”) e Ladrão de Casaca (“To Catch A Thief”).
Em Janela Indiscreta, apesar de ser uma socialite e modelo que frequenta importantes eventos sociais de Nova Iorque (e se veste muito bem), a personagem de Grace Kelly faz companhia para o noivo, um fotógrafo, que está com a perna quebrada. Ele acredita ter testemunhado um assassinato, e ela embarca nessa obsessão, arriscando sua vida ao entrar no apartamento onde o homicídio teria ocorrido, para descobrir o que aconteceu. Tudo isso pela emoção do perigo.

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Grace Kelly em Janela Indiscreta (“Rear Window”). Créditos: DVD Beaver.

No filme Disque M para Matar, Grace interpreta uma mulher casada herdeira de uma grande fortuna que teve um caso no passado e está apaixonada por outra pessoa. Ao descobrir a traição, o marido arma um plano para matá-la e ela luta com todas as forças contra seu assassino.

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Em Disque M para Matar (“Dial M for Murder”). Créditos: DVD Beaver.

Já em Ladrão de Casaca, sua personagem é uma jovem rica e entediada de férias com sua mãe. Ela conhece um famoso ex-ladrão de jóias e tenta convencê-lo de tê-la como cúmplice. Ela quer uma vida mais emocionante e menos previsível, e acha que o ladrão é sua chance. A personagem o seduz, o beija, o desmascara, ou seja, ela é uma mulher ativa diante de sua sexualidade. Além disso, a adrenalina do roubo lhe atrai e em uma cena, ela dirige seu carro em alta velocidade em um desfiladeiro.

grace04Grace Kelly em Ladrão de Casaca (“To Catch A Thief”). Créditos: DVD Beaver.

Nos outros filmes que fez, a persona se mantém. Em Matar ou Morrer (“High Noon”), Grace está recém-casada com Gary Cooper, o xerife da cidade, e espera sair dali com ele antes de um bandido perigoso voltar. Ela interpreta uma mulher rica que vai para a África com o marido cineasta filmar um documentário sobre gorilas, em Mogambo. Lá, ela conhece um caçador e vive um romance proibido com ele. Em Alta Sociedade (“High Society”), Grace é uma mulher da alta sociedade que está noiva, mas seu ex-marido, um músico de Jazz interpretado por Bing Crosby quer reconquistá-la. Interpretou ainda uma princesa em O Cisne (“The Swan”), a dona de uma fazenda de café em Tentação Verde (“Green Fire”), e a esposa de um ex-oficial da Marinha no filme As Pontes de Toko-Ri (“The Bridges of Toko-Ri”), sempre envolvidas em algum romance.

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 Com Frank Sinatra em Alta Sociedade (“High Society”). Créditos: Everything Monaco.

Grace teve uma chance de mostrar um lado mais versátil no filme Amar é Sofrer (“The Country Girl”). Ela interpreta uma mulher fria e infeliz casada com um astro decadente e alcóolatra. Por esse papel, Grace recebeu o Oscar de “Melhor Atriz”, ganhando de Judy Garland, por Nasce Uma Estrela (“A Star Is Born”), o que muitos consideraram uma grande injustiça.

 

Trecho de Janela Indiscreta (“Rear Window”).

Quatorze Horas (“Fourteen Hours”) – Direção: Henry Hathaway, 1951, EUA.

Matar ou Morrer (“High Noon”) – Direção: Fred Zinnemann, 1951, EUA.

Janela Indiscreta (“Rear Window”) – Direção: Alfred Hitchcock, 1954, EUA.

Disque M para Matar (“Dial M for Murder”) – Direção: Alfred Hitchcock, 1954, EUA.

Ladrão de Casaca (“To Catch A Thief”) – Direção: Alfred Hitchcock, 1955, EUA.

Mogambo – Direção: John Ford, 1953, EUA.

Alta Sociedade (“High Society”) – Direção: Charles Walters, 1956, EUA.

O Cisne (“The Swan”) – Direção: Charles Vidor, 1956, EUA.

Tentação Verde (“Green Fire”) – Direção: Andrew Marton, 1954, EUA.

As Pontes de Toko-Ri (“The Bridges of Toko-Ri”) – Direção: Mark Robson, 1954, EUA.

Amar é Sofrer (“The Country Girl”) – Direção: George Seaton, 1954, EUA.

Grace: A Princesa de Mônaco (“Grace of Monaco”) – Direção: Olivier Dahan, 2014, EUA.

Nasce Uma Estrela (“A Star Is Born”) – Direção: George Cukor, 1954, EUA.

Grace Kelly – Persona – parte 1

grace12Créditos: Everything Monaco

Alguns atores – principalmente os do período clássico e pré-clássico – eram associados a um determinado tipo de personagem, uma persona criada pelo estúdio nos filmes e nas matérias publicitárias. Marilyn Monroe era a loira burra e sensual e Humprhey Bogart, o detetive durão. Os atores, de vez em quando, podiam fazer personagens fora do estereótipo. Mas, muitas vezes, isso significava no fracasso do filme, já que o público adorava ver as personas nas telas.
Nesse post, vamos falar sobre a persona de Grace Kelly. Embora a atriz tenha tido pouco tempo de carreira, ela se destacou nos filmes em que trabalhou e é uma das maiores lendas do cinema, além de ser até hoje considerada uma das mulheres mais belas e elegantes do mundo. Se tornou a musa de Hitchcock e ganhou diversos prêmios pelas suas interpretações. Até que se casou com Princípe Rainier III de Mônaco e abandonou Hollywood.

grace13Grace Kelly em Ladrão de Casaca (“To Catch A Thief”). Créditos: DVD Beaver.

BIOGRAFIA
Assim como a maioria de suas personagens, Grace era de uma família abastada. Passou sua infância e adolescência estudando em colégios católicos para meninas ricas. Quando completou 18 anos, foi estudar teatro na Academia Americana de Artes Dramáticas.

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Créditos: Everything Monaco

Durante esse tempo, Grace trabalhou em algumas peças teatrais e programas de TV, até que ela ganhou uma participação no filme Fourteen Hours. Embora não tenha tido muito destaque com o filme, Grace foi chamada para seu próximo longa Matar ou Morrer (“High Noon”), um faroeste estrelado por Gary Cooper. A personagem era uma moça de família e muito decente, que tinha acabado de casar com um dos homens mais importantes da cidade: o xerife, interpretado por Cooper. O papel lhe rendeu um contrato com o estúdio MGM e Grace se tornou uma estrela.

grace07No filme Matar ou Morrer (“High Noon”). Créditos: DVD Beaver.

PERSONA
Por conta da riqueza de sua família, o estúdio criou uma persona condizente com sua biografia. Suas personagens eram mulheres sofisticadas, pertencentes a alta sociedade e que tinham muita classe. Se vestiam de forma elegante e sempre feminina. Em 1950, a moda era usar saias rodadas, referentes ao estilo ladylike, e Grace foi uma das responsáveis por propagar essa tendência para o mundo. Além disso, seu cabelo loiro, bem penteado e brilhoso, sua pele branca e macia, seus olhos claros faziam dela o ideal de beleza americana. Fora das telas, a persona se mantinha, já que a publicidade em torno da atriz sempre mencionava sua família rica, sua beleza e pouco falava dos romances da atriz, que era discreta em relação a sua vida pessoal. Na ficção e na realidade, Grace Kelly era uma dama com traços de aristocracia.
Entretanto, apesar de serem moças finas e respeitadas, as personagens da atriz gostavam de se divertir, e, nem sempre, seguiam as regras. Mulheres ligadas aos valores morais da sociedade, porém contemporâneas, inteligentes, capazes, demonstrando atitude e iniciativa (inclusive romanticamente), sem perder a elegância. Grace Kelly tinha a capacidade de ser pura e sexy, ao mesmo tempo, na tela.

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Ao lado de James Stewart em Janela Indiscreta (“Rear Window). Créditos: Clothes on Film.

Uma curiosidade é que, na maior parte dos filmes em que trabalhou, seus pares românticos eram homens muito mais velhos do que ela, como William Holden (11 anos mais velho), Cary Grant (25 anos mais velho), Clark Gable (28 anos mais velho), James Stewart (21 anos mais velho), dentre outros.

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Seduzindo Cary Grant em Ladrão de Casaca (“To Catch A Thief”). Créditos: DVD Beaver.

Grace abandonou Hollywood para se casar com o princípe Ranier III, em 1956. A persona de Grace Kelly tinha tudo para se tornar uma princesa, e sua coroação foi um evento natural. Afinal, ela já fazia parte da realeza de Hollywood, e, até hoje, é a atriz mais sofisticada que o Cinema já viu. Morreu em 1982, como a Princesa de Mônaco, casada com o princípe e mãe de três filhos. Em breve será lançado o filme Grace: A Princesa de Mônaco (“Grace of Monaco”), com Nicole Kidman interpretando a atriz e princesa durante seu reinado em Mônaco.

grace08Grace Kelly em seu casamento. Créditos: Grace and Family

 Morreu em 1982, como a Princesa de Mônaco, casada com o princípe e mãe de três filhos. Em breve será lançado o filme Grace: A Princesa de Mônaco (“Grace of Monaco”), com Nicole Kidman interpretando a atriz e princesa durante seu reinado em Mônaco.

grace11Grace Kelly em seu casamento. Créditos: Grace and Family.

Continuação no próximo post.

Billy Wilder – alguns filmes

Depois de falar da biografia do diretor e roteirista Billy Wilder (nesse post), abaixo seguem alguns de seus principais filmes. É difícil escolher somente alguns títulos, já que a carreira desse diretor está repleta de obras marcantes e inovadoras, mas aqui vão alguns:

Pacto de Sangue (“Double Indemnity”) – Direção: Billy Wilder, 1944, EUA.
Pacto de Sangue é um dos principais (se não o principal) filmes do gênero noir. Uma mulher seduz um vendedor de seguros para que ele mate o marido dela, e os dois fiquem com o dinheiro do seguro. A atmosfera pessimista, o caráter ambíguo dos personagens, e a trama perversa e sensual deram o tom para diversos outros filmes do gênero e marcaram Wilder como um excelente diretor.
O filme recebeu sete indicações ao Oscar, mas não ganhou nenhuma, incluindo “Melhor Direção” para Billy Wilder e “Melhor Roteiro” para Billy Wilder e Raymond Chandler.

double02Créditos: DVD Beaver

Farrapo Humano (“The Lost Weekend”) – Direção: Billy Wilder, 1944, EUA.
Até então, as cenas com bebida alcóolica no cinema apareciam sempre de uma forma cômica, com o personagem bebendo até cair. Nesse filme, Billy Wilder mostra um retrato sombrio e angustiante do alcoolismo, mostrando desespero de um homem que tenta se recuperar do vício, mas está sempre caindo em tentação. A indústria de bebidas alcóolicas ficou com medo da reação do público após o filme e tentou impedir sua exibição, mas a Paramount (na época, Wilder era contratado do estúdio) decidiu lançar o filme que foi um grande sucesso.
Farrapo Humano foi indicado a sete Oscar e ganhou nas categorias: “Melhor Filme”, “Melhor Ator” para Ray Milland, “Melhor Roteiro” para Billy Wilder e Charles Brackett, e “Melhor Direção” para Billy Wilder.

lostweekend01Créditos: DVD Beaver

Crepúsculo Dos Deuses (“Sunset Boulevard”) – Direção: Billy Wilder, 1950, EUA.
Um roteirista iniciante fica hospedado na casa de uma atriz decadente que foi uma estrela do cinema mudo. Ela o contrata para trabalhar no roteiro de um filme que promete ser seu grande retorno, porém, a relação entre os dois se torna cada vez mais estranha, na medida que o comportamento da atriz é enlouquecedor.
Com certeza, Crepúsculo Dos Deuses é um dos principais filmes americanos pelos diálogos inteligentes, personagens instigantes e pela temática: o lado sombrio e nada glamuroso de Hollywood. Uma das cenas mais famosas do filme, e que ficou marcada na história do cinema, é o final em que Norma confunde as câmeras dos jornalistas com o set de seu filme e diz “All right, Mr. DeMille. I’m ready for my close-up”. (“Tudo certo, Mr. DeMille. Estou pronta para meu close-up”).
O filme recebeu onze indicações ao Oscar, incluindo “Melhor Filme” e “Melhor Direção”, e venceu em três: “Melhor Direção de Arte – preto e branco”, “Melhor Trilha Sonora” e “Melhor Roteiro” para Billy Wilder, Charles Brackett e D.M. Marshman Jr.

crepusculodosdeuses01Créditos: DVD Beaver

A Montanha dos Sete Abutres (“Ace in The Hole”) – Direção: Billy Wilder, 1951, EUA.
Billy Wilder revela toda sua descrença na humanidade nesse filme. Um jornalista fracassado vê a grande oportunidade de sua carreira ao encontrar um homem preso em uma mina. Ao invés de ajudar a vítima, ele consegue adiar seu resgate, explorando o evento ao máximo em matérias sensacionalistas.
A trama é inspirada em um evento real, quando um homem ficou soterrado em uma caverna e a imprensa transformou aquilo num circo. Por conta disso, A Montanha dos Sete Abutres foi um fracasso de bilheteria e os jornais o chamaram de “anti-americano”, todos acharam que era uma crítica de Billy (austríaco) aos americanos, mas, na verdade, era uma crítica a toda humanidade.
Devido a baixa popularidade, A Montanha dos Sete Abutres foi somente indicada ao Oscar de “Melhor Roteiro Original” (Billy Wilder, Lesser Samuels e Walter Newman) e não ganhou.

montanha01Créditos: DVD Beaver

Sabrina – Direção: Billy Wilder, 1954, EUA.
Sabrina era a filha sem graça e quase invisível do motorista da poderosa família Lirabee. Depois de alguns anos estudando em Paris, ela volta uma mulher sofisticada e logo chama a atenção dos dois irmãos que vivem na casa: Linus (Humphrey Bogart), um homem sério, sem tempo para romance, dedicado aos negócios familiares e David (William Holden), o playboy que adora se divertir.
O filme mostra um lado mais romântico de Billy Wilder e até do ator machão Humphrey Bogart, que nunca fora dado a sentimentalismos.
Sabrina ganhou o Oscar de “Melhor Figurino” para Edith Head (para saber mais sobre a figurinista veja aqui). Billy Wilder foi indicado a “Melhor Direção” e “Melhor Roteiro Adaptado”, junto a Samuel Taylor e Ernest Lehman.

sabrina03Créditos: Plano Sequência

O Pecado Mora ao Lado (“The Seven Year Itch”) – Direção: Billy Wilder, 1955, EUA.
Enquanto sua mulher viaja, Richard Sherman conhece a nova vizinha, uma modelo loira, interpretada por Marilyn Monroe. Os dois inciam um relacionamento amigável, mas ele está atormentado por fantasias maliciosas, tentando se controlar para se manter fiel.
A cena em que Marilyn para em cima do buraco do metrô se tornou inesquecível e imortalizou a atriz. A sequência foi filmada pela primeira vez em Nova Iorque, e uma multidão vibrava cada vez que era preciso repeti-la (diz-se que Marilyn não conseguia acertar suas falas). Entretanto, devido ao barulho feito pelos espectadores, a cena foi refilmada nos estúdios da FOX.
A imagem de divulgação do filme mostra o vestido de Marilyn subindo, e se tornou uma das mais famosas, entretanto, o filme há um corte que não revela o que há por baixo do vestido.
O Pecado Mora ao Lado foi o primeiro trabalho de Wilder na FOX, depois que ele deixou a Paramount.

Quanto Mais Quente Melhor (“Some Like It Hot”) – Direção: Billy Wilder, 1959, EUA.
Mais uma vez Billy Wilder dirigia Marilyn Monroe. Jack Lemmon e Tony Curtis interpretam dois músicos que, após testemunharem um assassinato cometido por gângsters perigosos, se disfarçam de mulheres e entram para uma banda feminina. Lá, eles conhecem a graciosa porém rebelde vocalista, interpretada por Marilyn. Ela desistiu de namorar músicos e quer encontrar um marido milionário, então Curtis se disfarça de herdeiro da Shell enquanto Lemmon tem que fugir das investidas de um milionário de verdade.
Billy Wilder foi indicado ao Oscar de “Melhor Direcão” e “Melhor Roteiro Adaptado” (juntamente com I.A.L. Diamond), dentre outras e o filme venceu na categoria “Melhor Figurino – preto e branco”.
Até hoje, é considerado uma das maiores comédias do cinema.

somelikeithot01Créditos: DVD Beaver

Se Meu Apartamento Falasse (“The Apartment”) – Direção: Billy Wilder, 1960, EUA.
Em Se Meu Apartamento Falasse, um homem solteiro, interpretado por Jack Lemmon, empresta seu apartamento para os chefes usarem com suas amantes, visando subir dentro da empresa em que trabalha. Até que um dia, ele se apaixona pela assessorista, que na verdade, é a amante do diretor da empresa.
Dez anos depois de ganhar o primeiro Oscar de “Melhor Direção”, Billy Wilder o ganhou novamente por essa comédia, meio dramática. Também ganhou “Melhor Roteiro Original”, junto a I.A.L. Diamond. O filme ainda levou “Melhor Direção de Arte – preto e branco”, “Melhor Edição” e “Melhor Filme”. Naquele ano, Alfred Hitchcock também concorria ao prêmio de “Melhor Direção” com o filme Psicose (“Psycho”).

apartment01Créditos: DVD Beaver

Psicose (“Psycho”) – Direção: Alfred Hitchcock, 1960, EUA.