política

O medo comunista em Hollywood – parte 1

O comunismo sempre fora um um alvo do governo americano. Em 1918, criaram o Comitê de Atividades Anti-Americanas, conhecido como HUAC (House Committee on Un-American Activities) para investigar possíveis membros do Partido Comunista, simpatizantes e evitar qualquer tipo de prática e disseminação de idéias comunistas nos EUA.

Nos anos 40, a HUAC começou a buscar ligações entre a indústria do cinema e o Partido Comunista, com medo de que os filmes servissem como propaganda comunista. Um antigo membro do partido comunista teria apresentado uma lista com o nome de 42 integrantes de Hollywood, dentre eles Humprhey Bogart e Katherine Hepburn que poderiam ser simpatizantes do partido. Após se apresentarem perante o comitê, todos foram liberados pelo presidente do HUAC, exceto o ator Lionel Stander, de Nasce Uma Estrela (“A Star is Born”), demitido pelo estúdio após o episódio. Ainda assim, a HUAC não dispensou Hollywood tão fácil de suas investigações.

hollyten12Créditos: Tagg.com

Em 1947, a HUAC criou uma lista negra apontando 43 nomes de atores, diretores, produtores e, principalmente roteiristas, ligados ao Partido Comunista. Dentre eles, onze foram intimados a se apresentarem perante o HUAC, e dez se negaram a depor. O único que concordou em responder as perguntas do comitê foi o dramaturgo Bertolt Brecht.

Ficaram conhecidos como “Os Dez de Hollywood”. Todos se recusaram a responder a pergunta: “Você é ou já foi um membro do Partido Comunista?” e apelaram pela Primeira Emenda que confere o direito a liberdade de expressão. Essa tentativa de nada adiantou e os dez foram citados por desrespeito ao congresso, sob pena de reclusão. Eram eles:

RING LARDNER JR., roteirista de Laura e A Mulher do Dia (“The Woman of the Year”).
JOHN HOWARD LAWSON, roteirista de Comboio para o Leste (“Action in the North Atlantic”).
ALBERT MALTZ, roteirista de Alma Torturada (“This Gun for Hire”)
SAMUEL ORNITZ, roteirista de Fugitivos do Terror (“Three Faces West”)
ADRIAN SCOTT, produtor de Até a vista, querida (“Murder, My Sweet”) e Rancor (“Crossfire”)
DALTON TRUMBO, roteirista de Mortalmente Perigosa (“Gun Crazy”)
ALVAH BESSIE, roteirista de Um Punhado de Bravos (“Objective Burma”)
EDWARD DMYTRYK, diretor de Até a vista, querida (“Murder, My Sweet”) e Rancor (“Crossfire”)
HERBERT BIBERMAN, diretor e roteirista de Os Super Homens (“The Master Race”)
LESTER COLE, roteirista de Viva Zapata!

hollyten02Nove dos “10 de Hollywood”. Créditos: UCLA Library

O caso dos “Dez de Hollywood” gerou dois movimentos opostos envolvendo os trabalhadores de Hollywood.

Humphrey Bogart, Lauren Bacall, John Huston, dentre outras personalidades fundaram o Comitê Pela Primeira Emenda (Comittee for the First Amendment) para protestar contra o ataque da HUAC a Hollywood e, principalmente, em defesa dos “Dez”. Houve ainda um documento com 204 assinaturas defendendo os “Dez de Hollywood”,

Entretanto, a MPAA (Motion Picture Association of America), associação que reunia todos os grandes estúdios de Hollywood, anunciou que demitiria os “Dez” sem pagamento, e não os contrataria até que se declarassem não-comunistas. Isso valeria também para outros que apareceressem na lista negra.

A causa anti-comunista tinha apoio de diversos nomes da indústria. Walt Disney fundou o MPA (Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals), numa tradução literal, Aliança de Filmes Pela Preservação dos Ideais Americanos. Barbara Stanwick, Gary Cooper, Cecil B. DeMille, Ginger Rogers, Ronald Reagan, John Wayne, King Vidor, dentre outros também integravam a organizacão, que tinha como objetivo impedir que as idéias comunistas e fascistas atingissem a indústria.

hollyten13Humphrey Bogart e sua mulher, Lauren Bacall lideram uma passeada contra as investigações da HUAC. Créditos: MSN

Em 1950, os dez foram presos pelo crime de desrespeito ao congresso. Naquela década, a lista negra continuou crescendo não apenas em Hollywood. O medo do comunismo cresceu com o surgimento da figura do Senador McCarthy e instaurou-se uma política de perseguição a qualquer um que demonstrasse simpatizar com o comunismo. Esse período ficou conhecido como Macartismo ou “Caça as Bruxas”, que, hoje em dia, se tornou sinônimo de perseguição políticas e práticas anti-democráticas.

O pânico se instaurou em Hollywood, entrar para lista negra não era difícil, e significava o fim da carreira. Todos queriam se certificar de que não seriam considerados simpatizantes. Humphrey Bogart, por exemplo, escreveu um artigo afirmando que ele não era comunista. Vários trabalhadores da indústria do Cinema foram chamados para depor, alguns denunciavam amigos para poder se livrar das acusações e os que se recusavam a coolaborar perdiam o emprego.

O diretor Edward Dmytryk, um dos “Dez”, pode sair antes da prisão, ao se declarar um comunista arrependido e delatar alguns nomes. O diretor Elia Kazan também delatou conhecidos e colegas de trabalho, acabando com suas carreiras. Um deles foi o ator John Garfield, de O Destino Bate à Sua Porta (“The Postman Always Rings Twice”) e A Luz é Para Todos (“Gentleman’s Agreement”), que não aguentou a pressão de estar na lista negra e morreu de infarte em 1952.

hollyten05Créditos: UCLA Library

Carl Forman escreveu também o roteiro de Matar Ou Morrer (“High Noon”), um filme que simbolizava a “caça as bruxas” e, considerado até hoje, um dos maiores faroestes. O xerife de uma cidade do oeste tenta convencer a população de uma cidade a lutar contra um assassino que ele prendeu há anos e que está de volta para se vingar. Entretanto, todos o abandonam e ele precisa se defender sozinho. Forman entrou para a lista negra logo depois.

Para driblar a falta de emprego, os profissionais saíram do país para trabalhar em produções internacionais e houve, ainda, alguns casos de suicídios.

Os roteiristas que estavam na lista negra tinham outras alternativas: escreviam utilizando pseudônimos ou dando créditos a outros amigos da indústria. Foi o caso de Dalton Trumbo, um dos “Dez” que não levou crédito por ter trabalhado no roteiro de A Princesa e o Plebeu (“Roman Holliday”) até 2011, 60 anos depois da estréia do filme. Carl Forman e Michael Wilson, ambos listados, escreveram A Ponte do Rio Kwai (“The Bridge on the River Kwai”) às escondidas. O filme ganhou o Oscar de “Melhor Roteiro Adaptado”, mas quem o recebeu foi o autor francês do romance que originou o filme, Pierre Boulle, que não falava inglês.

highnoon02Imagem do filme Matar Ou Morrer.  Créditos: DVD Beaver.

(CONTINUA)

 

Nasce Uma Estrela (“A Star is Born”) – Direção: William A. Wellman e Jack Conway. 1937. EUA.

Laura – Direção: Otto Preminger. 1944. EUA.

A Mulher do Dia (“The Woman of the Year”) – Direção: George Stevens. 1942. EUA.

Comboio para o Leste (“Action in the North Atlantic”) – Direção: Lloyd Bacon, Byron Haskin e Raoul Walsh. 1943. EUA.

Alma Torturada (“This Gun for Hire”)– Direção: Frank Tuttle. 1942. EUA.

Fugitivos do Terror (“Three Faces West”) – Direção: Bernard Vorhaus. 1940. EUA.

Até a vista, querida (“Murder, My Sweet”) – Direção: Edward Dmytryk. 1944. EUA.

Rancor (“Crossfire”) – Direção: Edward Dmytryk. 1947. EUA.

Mortalmente Perigosa (“Gun Crazy”) – Direção: Joseph H. Lewis. 1950. EUA.

Um Punhado de Bravos (“Objective, Burma!”) – Direção: Raoul Walsh. 1945. EUA.

Os Super Homens (“The Master Race”) – Direção: Herbert J. Biberman. 1944. EUA.

Viva Zapata!– Direção: Elia Kazan. 1952. EUA.

O Destino Bate à Sua Porta (“The Postman Always Rings Twice”) – Direção: Tay Garnett. 1946. EUA.

A Luz é Para Todos (“Gentleman’s Agreement”) – Direção: Elia Kazan. 1947. EUA.

 A Princesa e o Plebeu (“Roman Holliday”) – Direção: William Wyler. 1953. EUA

A Ponte do Rio Kwai (“The Bridge on the River Kwai”) – Direção: David Lean. 1957. EUA.

Matar Ou Morrer (“High Noon”) – Direção: Fred Zinnemann. 1952. EUA.

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